terça-feira, 17 de setembro de 2013

O Rock in Rio, o turismo e a população anfitriã

O Rio de Janeiro sedia mais uma vez o Rock in Rio, em plena baixada de Jacarepaguá, na região do Riocentro, e cercado por uma série de condomínios, que constroem um novo cenário das redondezas do Autódromo, que alguns insistem em dizer que é Barra da Tijuca. Não podemos negar a importância do festival de música internacional, cujo nome não reflete a pluralidade musical que ali se apresenta. Trata-se de um momento importante para o turismo carioca, sobretudo para a divulgação institucional da cidade, uma vez que o público do evento é mormente composto por brasileiros, com um percentual grande de paulistas e mineiros. Outro fator importante é o fato de o mesmo acontecer na baixa estação, o que permite melhorar índices de ocupação hoteleira e gerar novos empregos, considerando a sazonalidade.

A Avenida Abelardo Bueno, que estava bastante esquecida pelas autoridades, ganhou uma verdadeira faxina, que inclusive poderia ter acontecido durante a Bienal. As árvores foram podadas, as lâmpadas trocadas, o contingente de garis aumentou, e até controladores de trânsito e guardas municipais apareceram. Neste sentido, a população da área agradece. No entanto, os transtornos causados para aqueles que ali moram ou trabalham foram sentidos com ênfase, sobretudo para quem se utiliza do transporte público, que já é precário e sem controle dos setores competentes, operando sem horários, fora dos grandes acontecimentos. A chamada inteligência do Trânsito, mais uma vez, obrigou as pessoas a andarem distâncias grandes para chegarem até suas casas ou locais de trabalho. Lamentável. Gostaria que ficasse bem claro que a valorização dos imóveis naquela região tem nos eventos o seu ponto de partida, mas a população merece um mínimo de respeito, sobretudo na prestação de serviços e na mobilidade.

Um evento pressupõe uma integração efetiva com a população anfitriã, sobretudo no caso de megaeventos ou grandes festivais musicais. Há necessidade de os organizadores reunirem a população, apresentando o evento, pontos positivos e negativos e buscando uma parceria. Tal fato não aconteceu. Os prédios vizinhos se depararam, mais uma vez, com sons ensurdecedores, para quem não gosta do tipo de música e helicópteros transitando na área, com barulho bem desagradável e prejudicial à saúde, durante horas e horas. Faltou aos organizadores, que se esmeraram tanto na organização, sensibilidade com os moradores locais. Não deveriam os organizadores oferecer cortesias ou descontos para os moradores das áreas vizinhas, como ocorre em outros grandes eventos, em outros países? Não seria a oportunidade para um trabalho de responsabilidade social naquela área? Ficam algumas sugestões.

Acredito que os eventos têm como objetivo contribuir para o desenvolvimento das cidades, na baixa estação, trazendo formas de melhoria da imagem institucional da localidade. No entanto, nenhum evento terá sucesso e será verdadeiramente sustentável se a população anfitriã não tiver participação efetiva nas decisões que afetam seu dia a dia. O Rock in Rio é um importante momento para nossa cidade, de alegria, de competência e de organização, mas a população não pode ser esquecida nunca.

*Bayard Do Coutto Boiteux, professor universitário e escritor, é pesquisador e preside o site consultoria em turismo. - www.bayardboiteux.com.br

Nenhum comentário:

Postar um comentário